Ela transformou os cuidados com o pai na infância em uma franquia que fatura mais de R$243 milhões por ano

Fundadora da Acuidar, Jéssica Ramalho lidera a maior rede de cuidadores da América Latina, que hoje conta com mais de 320 unidades por todo o Brasil

Jéssica Ramalho, CEO da Acuidar Divulgação Acuidar

Antes de liderar a maior franquia de cuidadores da América Latina, Jéssica Ramalho aprendeu cedo o que significa cuidar de alguém diariamente. Ainda criança, ela passou a acompanhar de perto os desafios de saúde do pai, convivendo com uma rotina que exigia atenção constante e responsabilidade. Naquele momento, não havia plano de negócios nem visão empreendedora, apenas a vivência que, anos depois, daria forma a uma empresa de grande escala.

Essa experiência não foi um episódio isolado da infância, mas algo que moldou a forma como Jéssica passou a enxergar seu futuro. Enquanto outras crianças tinham uma rotina previsível, ela cresceu entendendo que o cuidado exige presença contínua e decisões práticas. Anos depois, ao escolher a fisioterapia como profissão, essa vivência deixou de ser apenas emocional e passou a ganhar contornos técnicos. “Quando comecei a estudar, muitas situações que vivi em casa começaram a fazer sentido. Eu entendia o lado humano, mas ali aprendi o lado clínico”, relembra a CEO.

Já atuando profissionalmente na área da saúde, Jéssica passou a observar o setor com mais atenção. O que antes era uma experiência pessoal revelou-se um problema estrutural: famílias desassistidas, serviços informais, cuidadores sem preparo e ausência de acompanhamento adequado. “Eu me via nas histórias que escutava. Eram famílias cansadas, inseguras, sem saber se estavam tomando a decisão certa”, conta. A percepção de que esse cenário se repetia com frequência, principalmente em sua cidade natal, João Pessoa, foi decisiva para que ela começasse a pensar em soluções mais amplas.

Empreender, no entanto, não foi um movimento imediato nem simples. A ideia amadureceu aos poucos, entre a prática profissional, a maternidade e a vida familiar. Em 2016, ao lado do marido, o médico geriatra Vitor Hugo de Oliveira, Jéssica decidiu tirar o projeto do papel e fundou a Acuidar. O início foi marcado por limitações financeiras e operacionais: um empréstimo de R$ 10 mil, quitado ainda no primeiro ano, e uma rotina intensa em que a fundadora acumulava múltiplas funções. “Eu atendia telefone, fazia entrevistas, acompanhava casos e ainda precisava estudar como estruturar a empresa”, lembra.

Esse período foi determinante para a construção do modelo. Ao estar presente em cada etapa da operação, Jéssica desenvolveu uma visão detalhada do negócio e do impacto real do serviço prestado. “Eu precisava ter certeza de que o que estávamos oferecendo era algo em que eu confiaria para a minha própria família”, afirma. Essa lógica passou a orientar decisões sobre contratação, treinamento e relacionamento com clientes, criando uma base sólida para o crescimento.

Entrada para o franchising e expansão da rede

Com o aumento da demanda, vieram também os primeiros dilemas. “Houve um momento em que eu percebi que precisava escolher entre continuar pequena ou aprender a estruturar algo maior”, diz. A decisão de ingressar no franchising, em 2020, nasceu dessa reflexão e exigiu uma mudança profunda de postura: deixar de centralizar decisões e transformar conhecimento prático em processos replicáveis.

A transição não foi simples, uma vez que Jéssica precisou aprender a liderar à distância, formar times, confiar em gestores e criar mecanismos de controle que garantissem padrão sem engessar a operação. “Foi quando eu realmente deixei de ser apenas operadora e passei a atuar como líder do negócio”, explica. O franchising permitiu que a Acuidar ganhasse escala nacional, mantendo a essência do cuidado que havia dado origem à empresa.

Os resultados dessa construção apareceram nos anos seguintes. Ao final de 2025, a rede somava mais de 320 unidades em operação no Brasil, reunia mais de 17 mil cuidadores e ultrapassava 3,5 milhões de atendimentos realizados. O faturamento anual superou R$ 243 milhões, com crescimento de 34% em relação a 2024. Para a fundadora, esses números representam mais do que desempenho financeiro. “Eles mostram que é possível crescer sem se desconectar da origem”, afirma.

À medida que a empresa se tornava mais complexa, novos desafios surgiram. A necessidade de controle, padronização e agilidade levou Jéssica a apostar em tecnologia como ferramenta de ascensão. A incorporação de soluções baseadas em inteligência artificial ajudou a organizar processos, apoiar decisões e dar suporte às franquias.

A maturidade do modelo também trouxe reconhecimento institucional. Em 2025, a Acuidar recebeu o Selo de Excelência em Franchising da Associação Brasileira de Franchising, com chancela adicional em ESG, reforçando a consistência da operação e o impacto social da rede.

Hoje, ao planejar a próxima etapa de expansão, com a meta de alcançar 400 unidades em operação, Jéssica mantém como referência o mesmo ponto de partida que orientou suas escolhas desde o início. “Eu nunca consegui separar completamente a história pessoal do negócio. Nosso propósito sempre foi dar cuidado de excelência e atenção máxima, tanto aos assistidos, quanto aos cuidadores e pessoas que fazem a rede funcionar. Acredito que é isso que nos mantém em constante crescimento”, conclui.